O Ciclo Comportamental da Dor Crônica

23/06/2021

Quando me perguntam como é viver com dor crônica, respondo que é uma loucura. Nunca sei como será o próximo dia. Um dia produtivo? Alegre? Com a sensação de realização? Ou um dia arrastado pela dor, ou perdido por essa mesma dor em intensidade desesperadora?

A dor é flutuante, algumas vezes esperada como é o caso da hormonal para as mulheres (a cada 15 dias com dor, seja porque está ovulando, seja porque está menstruando).

A dor é ilimitada, não importa se é dor de cabeça, todo o organismo sofre com ela.

Quando entendemos e fazemos a aceitação dessa condição, passamos por ciclos comportamentais e emocionais mais ou menos previsíveis.

Hoje vou me ater ao ciclo comportamental.

A dor, seja ela crônica ou aguda, produz mudanças no nosso cotidiano. Aquilo que faço tranquilamente, se torna algo difícil ou impossível.

O ciclo comportamental apresenta estágios que alteram facilmente nosso dia a dia e nossa forma de agir.

Estágio 1 – Redução da atividade

A dor nos faz desacelerar, pausar ou parar. Nesse momento não delegamos nossas atividades, apenas paramos, vamos ao médico, tomamos os remédios e esperamos melhorar.

Estágio 2 – Aumento da atividade

Sinto-me melhor. Corro atrás de recuperar o tempo perdido. Faço o previsto para hoje e o previsto para os dias da dor. Afinal temos que executar nossas atividades.

Estágio 3 – Mais dor, menos atividade

A dor volta e outras dores, talvez, surjam. Seu pensamento te censura: “por que exagerei?”. Então você para, descansa e desacelera. Ao começar a melhorar você volta as atividades, e mais uma vez sente dor. Assim você começa a entender que a única forma de controlar sua dor é restringindo suas atividades. Muitas vezes, como não podemos perder o emprego, restringimos as tarefas domésticas e sociais.

Estágio 4 – Perda da força e do condicionamento

Quanto mais você para, descansa e desacelera, mais cansado e fraco e menos capaz você fica. E a ideia de fazer as coisas é assustadora, pois associou sua dor a atividade.

A vida social vai ficando cada vez mais restrita e as pessoas (amigos e parentes) se acostumam a viver sem você em determinadas situações. Pensam que estão sendo generosos e te ajudando. Eles respeitam a sua condição.

Você melhora e quando pensa que superou, a dor volta e o ciclo se repete.

Existem alguns comportamentos bem comuns que são induzidos pela dor, e são respostas naturais a dor e no início de seu processo. Esses comportamentos podem até te ajudar, mas com o tempo eles se tornam ineficazes. Muitas vezes esses comportamentos se tornam hábitos e nem sempre eles são conscientes.

Vejamos alguns exemplos:

· Mancar

· Chorar

· Gemer

· Fazer careta

· Limitar a atividade

· Ficar na cama

· Afastar-se das pessoas.

As pessoas a sua volta podem reagir de duas formas. Elas se incomodam e pensam: “de novo não”. Ou ficam atentas tentando fazer coisas para você. Nenhum desses comportamentos, no fundo, são bons, porque eles se concentram na doença e não na busca de estratégias para lidar com a dor.

Esse ciclo comportamental faz sentido para você? Você identificou os comportamentos induzidos pela dor que você usa? Se sim, me conta sua experiência.

Patrícia R. Areco Coelho de Oliveira CRP 06/48251 – Psicóloga especialista em Terapia Cognitiva. Portadora de dor crônica (enxaqueca).

Ajudo pessoas que sofrem com dor crônica a melhorarem sua qualidade de vida.